domingo, 26 de agosto de 2007

Com a casa em ordem

Com um ponto final na crise que atravessou a partir de 2004, a CA se reestrutura e começa a mudar seu futuro

Por Ricardo Setti

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John Swainson, da CA: novo rumo e crescimento de 7% este ano

No dia 21 de maio último, a CA, antiga Computer Associates, recebeu o sinal verde que acabou com um pesadelo que teve início em setembro de 2004 com o início do processo que a empresa sofreu nos tribunais dos Estados Unidos por suspeita de fraude em sua contabilidade.

No final de abril, no evento CA World 2007,baseado em Las Vegas,nos Estados Unidos, o atual presidente da empresa, John Swainson, já dava sinais mais do que claros ao mercado de que o processo não apenas teria um final feliz para a empresa como também os números deste ano, fruto da profunda reestruturação pela qual a empresa passou, alegrariam os acionistas.Dito e feito: a empresa anunciou um crescimento de aproximadamente 7% nas suas receitas no ano fiscal de 2007.

Foi na abertura do CA World deste ano que Swainson mostrou aos participantes aquilo que já se tornou uma marca registrada do executivo em suas aparições: a franqueza com a qual aborda os temas que dizem respeito ao futuro da empresa e do mercado, sejam eles bons, sejam ruins. Na edição anterior do evento,que aconteceu cerca de um ano e meio antes, John Swainson chegou a comparar a empresa, que acabara de assumir, a um avião desgovernado, sem rota nem rumo. Mas, ao contrário do que se pensava na época, o novo presidente acreditava que o avião tinha equipamento, combustível e tripulação para retomar o vôo, mesmo que alguns ajustes no motor precisassem ser feitos em pleno vôo.

Na época o executivo prometeu aos seus clientes uma profunda revisão não apenas da empresa com seus problemas fiscais mas também de todos os seus produtos e de toda a sua estratégia de negócios. O que pareceu a muitos um devaneio, um sonho de grandiosidade, foi meticulosamente cumprido por todos.Assim,Swainson e seu avião desgovernado se tornaram um comandante competente, pilotando um avião de última geração e com uma tripulação de dar inveja.

A mudança mais profunda na empresa talvez tenha sido a reunião de todos os produtos antes espalhados por diferentes soluções em uma única visão: a Enterprise IT Management (EITM).

Com essa nova filosofia por trás de seus produtos a empresa começou a mostrar a seus clientes que não se tratava mais puramente de uma empresa de software que detinha e vendia marcas conceituadas no mercado, mas sim de uma fábrica de soluções com uma linha completa de suítes que se encaixavam umas nas outras, formando um único bloco, e que tinha como objetivo final o manejo e o controle consistente de todo o parque de IT de uma empresa.

O conceito apresentado pela empresa em novembro de 2005 foi visto, a princípio, como mais uma das famosas siglas nos negócios de TI que são inventadas e que acabam resultando em praticamente nada de novo.Mas, ao contrário das expectativas, a CA soube divulgar, reforçar e, mais importante, acreditar no novo conceito. O foco da companhia passou a ser o tripé do EITM: governança, gerenciamento e segurança.


Michael Christenson: responsável pelas compras

Para atingir esses objetivos foram necessárias grandes aquisições de companhias já estabelecidas no mercado e a integração total dos novos produtos. Foram quinze grandes compras de empresas nos últimos dois anos.Desde pequenos e médios inovadores, como a Concord Communnications e a Niku, até líderes de mercado em segmentos específicos, como a Wily (gerenciamento de aplicações) e a Cybermation (automação de força de trabalho).

O investimento em pesquisa e desenvolvimento da empresa também cresceu, chegando a US$ 600 milhões e tornando possível o lançamento de até 300 versões diferentes de seus produtos no intervalo de um ano.

Apesar de aparentemente o ciclo de aquisições estar terminado, a empresa não descarta a possibilidade de ainda ir ao mercado comprar algo que lhes interesse e que possa ser integrado a sua gama de produtos.Nesse ponto a CA é categórica. O foco é sempre completar sua oferta de soluções para que não sobre nenhuma lacuna descoberta. Se houver algo que eles possam desenvolver em casa, ótimo. Senão, vão ao mercado atrás de quem o possa.

Todo esse investimento, porém, estaria fadado ao esquecimento e, eventualmente, ao fracasso não fosse,novamente, pela característica singular do presidente da empresa.De novo, a forma sincera, direta e pessoal de Swainson pode ter feito a diferença entre a vida e a morte para a companhia.

No final de 2005, com toda a crise de credibilidade pela qual passava a empresa, foi John Swainson que olhou nos olhos dos clientes e admitiu, quase publicamente, as falhas do passado. O discurso sempre foi na direção de que os problemas existiam mas que deveriam ser, e seriam, encarados a qualquer custo.

Swainson conseguiu convencer os clientes de que ele estava tratando da própria sobrevivência da companhia que, se não recuperasse a imagem, se não mostrasse que estava completamente comprometida com o sucesso de seus clientes, não chegaria a realizar um outro CA World tão cedo. Talvez não o fizesse nunca mais.

Esse discurso, por uma crença sincera ou por pura necessidade, encontrou ouvidos abertos entre os clientes, que não apenas continuaram apostando na empresa mas também elevaram seus gastos e seu comprometimento com as soluções da empresa.

Por essas razões a CA conseguiu, um ano e meio depois, realizar mais uma edição do já famoso evento. E esse, para os que passaram e sofreram com todo o processo de recuperação e reestruturação da empresa, teve um gosto especialmente doce. Era a hora de dizer ao mercado em alto e bom som: missão cumprida.

O evento, realizado em Las Vegas (EUA),mostrou muito da nova empresa. Para quem participou de edições anteriores, houve uma certa decepção. Este ano a estrutura foi mais modesta.Mas é exatamente essa a estratégia.

O evento deste ano deu muito foco às palestras, às conferências, às sessões técnicas e ao que realmente importava nos negócios de TI. Ficaram em segundo plano quaisquer outras preocupações que não fossem direcionadas ao business, como eventos, atrações etc. Trocou-se, por exemplo, uma noite de comédia com Jerry Seinfeld, um dos comediantes mais bem pagos do mundo, em 2005, por uma apresentação light de um conjunto de música e performance chamado The Blue Man Group.

Essa seriedade e, de alguma forma, contenção de gastos com atividades paralelas mostrou a todos o foco da empresa.“Clientes, hoje em dia, compram resultados”, disse Swainson em sua palestra de abertura. “Qualquer outra preocupação é secundária. Se pudéssemos fazer apenas uma coisa, cuidaríamos dos nossos clientes”, foi a mensagem do executivo.

Para os participantes, o que ficou foi a impressão de uma nova empresa, nem de longe a daquela que, um ano e meio antes, fazia apenas promessas de melhoria sobre uma base que parecia começar a ceder. A impressão foi de que a faxina foi feita, a casa está em ordem. É hora de crescer.

Ainda há espaço para aquisições
Num bate-bola com a Forbes Brasil, Michael Christenson, o VP executivo da CA fala do que mais entende: aquisições. Foi ele o responsável pela maioria das compras da empresa nos últimos dois anos, desde que a reestruturação começou.

Como é o processo de decisão de compra de uma empresa por parte da CA?
O objetivo principal, quando analisamos uma opção de compra, é a forma como o produto atual oferecido pela empresa pode se encaixar no nosso modelo de negócios e em nossas soluções. Se podemos fechar um espaço que esteja descoberto, então levamos em conta a compra da companhia.

E como ocorre essa procura?
Normalmente de alguma necessidade levantada por algum de nossos clientes. Necessidades essas que podem ser percebidas por nós ou mesmo nos apresentada por algum usuário. Se, por exemplo, alguém que é um grande parceiro de nossas soluções nos apresenta um produto que ele utiliza e gostaria de ver integrado em nosso pacote, levamos em conta.

Qual o perfil das empresas normalmente consideradas?
São normalmente empresas médias, com um produto já sólido no mercado, com uma base de clientes instalada que compartilham os objetivos da CA, ou seja, ajudar na integração total do universo de TI dos seus clientes.

Quer dizer que startups estão fora do escopo?
Eu diria que sim. Apesar de não haver uma regra absolutamente rígida, não vejo um cenário em que uma startup tenha chance de ser adquirida pela CA.

Então qual a fórmula para que uma empresa possa ser considerada pela CA?
Lance seu produto, crie uma base de clientes, solidifique-os e mostre-nos que seu produto pode realmente agregar algum valor às nossas soluções. Assim o sucesso é garantido.

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